S?bado, 09 de febrero de 2008
Novembro (Depoimento Testamento)

?Escrevo desde que aprendi a ler.Tive quintal urbano e rua descal?a de terra cor-de-rosa. Rabiscava meus desenhos, letras e personagens pueris, em peda?os da madeiras, t?buas de pinho e retalhos de compensados da Marcenaria Estrela. Tive cachorro, ?rvore, rio, carrinho de rolim?s e nuvens por perto. Minha inf?ncia pobre foi o meu maior tesouro. Dizem que eu conversava muito sozinho. S? n?o reparavam em quem me respondia. Em casa era castigo ler dicion?rio, b?blia, revistas e jornais. Sempre fui um ledor voraz como se uma fuga para a terra do nunca. E lia de tudo. Do sil?ncio letral de minha m?e Eug?nia, a prel?dios, auroras, gibis, pensamentos; afetos escondidos e ternuras coloridas com algibeiras de pedras. E tamb?m os olhares do meu Pai com seu acordeom vermelho. Fui criado desde que nasci entre mulheres. No come?o eu tinha um infinito medo de morrer. Escrever me fez tentar a recria??o de uma outra vida, um novo c?u, uma nova terra. Ou mesmo a possibilidade de deixar minha dor de existir como testamento l?rico, letral em poemas, can??es, causos e desenhos abstratos, primitivos, her?ldicos. Escrever para mim ? mais importante do que viver. Acho que a minha alma-nau respira quando eu estou escrevendo. E assim me livro de mim, ou de ser o que sou enquanto terrestre e finito. E escrevo muito. E escrevo sobre tudo. E escrevo o tempo todo como se uma catarse on?rica. Escritor ? como um m?sico, um pintor, um fot?grafo ou retratista. Registra seu tempo e as amarguras de seu tempo. Sinto a dor dos outros nos ombros. Ainda trago a minha inf?ncia comigo. Levo Itarar? por onde for, com seus quintais, seus rios, seus pinheiros, tempestades, ruas de cacau quebrado, paralep?pedos e pessoas. Minha inf?ncia em Itarar? o meu maior tesouro. Crio personagens para povoar o mundo que sonho recriar dentro de mim, e, depois, para fora de mim, nos livros. Fa?o poesia para ter companhia. As pessoas riem muito comigo, como se eu tivesse um nariz vermelho de palha?o... O elogio que mais recebi, a vida inteirinha, foi: -Voc? n?o existe!.

Fa?o algumas pessoas chorar com o que escrevo em verso e prosa, e assim
Quando eu morrer, espero poder vir a escrever no C?u.
As nuvens, ent?o, chorar?o por mim.







O Poeta e o Ser Humano

O ser humano diz: eu me orgulho de ser o que sou por mim mesmo
O Poeta diz: eu sou cidad?o vivendo para a comunidade plural

O ser humano diz: eu abri as m?os e possui o mundo
O Poeta diz: abrindo o cora??o plantei esperan?as

O ser humano diz: quando morrer quero ser reconhecido
O Poeta diz: meus poemas falar?o de mim plantando sonhos

O ser humano diz: eu sempre ven?o os meus inimigos.
O Poeta diz: eu preciso de inimigos para escrever na luz

O ser humano diz: eu vivi por mim mesmo e adquiri posses
O Poeta diz: n?o tenho mais do que ningu?m, o que tenho lutei para ter

O ser humano diz: as pessoas obedecem minhas ordens.
O Poeta diz: eu devo amar as pessoas como elas s?o.

O ser humano diz: eu sempre pensei em mim e por isso sou her?i
O Poeta diz: vivi pelos que amo pois sou eterno aprendiz

O ser humano diz: eu destruo os obst?culos todos
O Poeta diz: eu me transformo na vida para a vida comunit?ria

O ser humano diz: estudei, fiquei rico e venci
O Poeta diz: estudando compreendi que conhecimento ? luz

O ser humano diz : eu tomo a espada a ven?o a todos
O Poeta diz: eu ajudo todo mundo a carregar a cruz








Silas Correa Leite, Itarar?-SP
E-mail: [email protected]
www.campodetrigocomcorvos.zip.net
www.portas-lapsos.zip.net

Tags: SILAS CORREA LEITE

Publicado por gala2 @ 13:05  | POEMAS
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