domingo, 27 de enero de 2008
Acordes e rosas em meu peito
ROSAS EM MEU PEITO
Tenho rosas em meu peito,
as que perfumam
e as que ferem.
Rosas vivas,
opostas ao frio inerte que (pre)ssinto,
ao limbo de primavera,
a essa ausência de suor.
Tenho pétalas nas mãos,
secas e desbotadas pétalas,
num ramalhete macabro,
presente de um final sem fim.
Restam-me espinhos nos lábios,
sorrisos murchos ou esquecidos das cores,
lembranças fechadas nas páginas de um livro anônimo,
aguardando, na prateleira, o folhear dos anos.
Encanto-me com a roseira,
recordo fragrâncias,
revivo bilhetes e guirlandas,
com a certeza de nunca,
de verdade,
findar a estação.
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LUAS, PEDRAS E OCEANOS
Eu ciclo, como as fases dessa lua,
E sangro, como o peito do poeta.
No sonho que sonhei, pra sempre tua,
Fui noite, fui estrela, fui a pedra.
Nos mares dos teus olhos de oceano,
Profundos, anciãos, aterradores,
Meus olhos fugidios, sem engano,
encalham na paixão dos teus humores.
Meu peito abarca os golpes dos punhais
E canta as tuas rochas e os teus troncos,
Emaranhados versos, qual serpentes.
Meu colo é desenhado por teus ais,
Arqueja por teu toque, aos solavancos,
E ainda guarda as marcas dos teus dentes.
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ACORDES
Há um homem da mata,
À espreita, como a nota mais perfeita,
como o som de manhãs de sol,
riacho pleno em sussurro às cachoeiras.
Anda por entre galhos,
folhas secas e sorrisos,
fita com o olhar das árvores,
certeza de mil anos,
gestos frondosos,
e medo de criança.
Esse homem brinca de desafinar os pássaros,
sopra nuvens e venta brisas,
e canta com as vozes do entardecer.
Há um homem na mata,
que não se deixa aprisionar,
que se move com as gazelas,
que se entende com as raízes.
Sabe das tristezas dos homens,
da agudeza das palavras ocultas,
e solfeja a diferença.
Há esse homem guardado dos tempos,
que surge entre raios e verde,
feito pintura.
Vem de lugar algum,
de não se sabe a razão.
Ele chega de passagem,
mas deixa impregnado um cheiro de eternidade.
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